Congestionamentos, lentidão e falta de vagas para estacionar. Assim começa o dia de grande parte dos pessoenses que utilizam veículo particular para se locomover.
A perda da mobilidade no trânsito já era sentida pelos motoristas, mas foi comprovada na última sexta-feira, 11, quando o Departamento Estadual de Trânsito (Detran) apresentou dados revelando que a frota de veículos automotivos em circulação em João Pessoa aumentou 219% nos últimos dez anos.
A matemática é a seguinte: em 2000, a cidade tinha em circulação 100.427 veículos, entre carros e motos, dividindo ruas e avenidas; hoje, são 320.398.
Com uma população estimada em pouco mais de 720 mil habitantes, a equação se fecha com o resultado de 2,2 pessoas para cada veículo.
De acordo com a projeção apresentada pelo Detran, todos os anos a frota da Capital será acrescida de 32 mil novos veículos por ano.
Não precisa ser vidente para prever que, se nada for feito, em pouco tempo a cidade vai parar.
As intervenções do poder público, modificando a dinâmica do trânsito e destinando faixas para ônibus não mostram a eficiência esperada.
Estimular o uso do transporte coletivo para melhor a fluidez do trânsito passa a ser uma das soluções possíveis para o caos anunciado e, também, um grande desafio para os gestores do setor.
Reduzindo o número de carros e motos em circulação o trânsito ficaria mais ágil, e os 540 ônibus que compõem o sistema de transporte público de João Pessoa teriam mais espaço para rodar, diminuindo o tempo entre uma viagem e outra.
Com menos veículos particulares nas ruas, seria possível também aumentar a oferta de ônibus e linhas, oferecendo um serviço mais amplo, que atendesse aos novos usuários.
O problema é que para atrair outros passageiros será preciso, antes de tudo, desmistificar o transporte público, eliminando o preconceito de quem resiste em utilizá-lo.
A resistência que a maioria dos proprietários de carros e motos tem em usar os ônibus como meio de transporte é tanta que no dia 22 de setembro deste ano, quando João Pessoa aderiu à campanha mundial “Na cidade sem meu carro”, poucas pessoas abriram mão de seu veículo particular.
Mesmo as pessoas que têm horários fixos e residem em áreas que são bem servidas de transporte coletivo afirmam que só andariam de ônibus “se fosse o único jeito”. Os motivos apresentados variam, sendo que alguns “problemas” citados sequer existem ou já foram solucionados. Um exemplo disso é o depoimento de Adriana Soares Nóbrega Farias de Melo. Ela mora em Miramar e diz que só andaria de ônibus se tivessem ar-condicionado. Ela não sabia que grande parte dos veículos em circulação em João Pessoa possui sistema de refrigeração interno e até mesmo aparelhos de TV para distrair os passageiros durante a viagem.
Informada que suas condições já foram atendidas, Adriana encontrou um novo argumento. “Gosto muito de me arrumar e usar salto e acho que isso não combina com ônibus. Acho que chegaria ao meu local de trabalho amarrotada”.
Já Rosângela Soares Torres, moradora do Bessa, disse que não abriria mão do próprio carro em detrimento do transporte público. O motivo, segundo ela, é a segurança. “O problema é que o ônibus não deixa na porta e, como a cidade está muito violenta, é mais seguro ir de carro”, diz.
Niedson Arruada de Sousa, residente em Jaguaribe, diz que o usa o carro para ir trabalhar porque tem horários muito corridos e precisa se deslocar com facilidade.
Ele reconhece que isso está ficando cada vez mais difícil por causa da lentidão no trânsito. “Eu acho que um dia o trânsito vai parar de vez e nós, motoristas, vamos ficar vendo os ônibus passarem em suas faixas exclusivas enquanto ficamos horas parados. Nesse dia, eu passarei a usar o ônibus”, prevê.
Vanda Cavalcante não possui veículo próprio. Morando no Velentina Figueiredo e trabalhando no Centro da cidade, ela também faz parte do grupo que resiste a usar o transporte público. “Para ir ao trabalho, vou de carona com meu irmão. Para voltar, uso táxi”, informa.
Ela sabe a economia que faria se utilizasse ônibus ao invés de taxi. “Mas não tenho disposição para andar até a parada, disputar no empurrão o acesso ao ônibus e, ainda, fazer o percurso de mais de 40 minutos em pé”, reforça.
Do lado da turma que não vê problema em usar o ônibus está Luiz Alves do Amaral, residente no Conjunto Ernesto Geisel. “Pego carona muitas vezes para trabalhar, mas não tenho problema em usar ônibus. Pelo contrário, aproveito a viagem para conversar e ouvir o que as pessoas estão pensando sobre os principais assuntos do momento”, informa.
No mesmo time, Samuel Nóbrega possui carro e moto. Morando no Valentina Figueiredo e trabalhando na Epitácio Pessoa, ele usa o carro para chegar ao escritório. “Mas, na hora do almoço sempre vou ao Centro para resolver algum problema e nessa hora sempre vou de ônibus para evitar engarrafamento e perda de tempo a procura de estacionamento”, disse.
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